Sunday, July 24, 2005

Um perplexo elogio à loucura

Foi uma tragédia para Menezes e sua família, e eu lamento profundamente o ocorrido (...) Mas creio que a polícia está fazendo o melhor, sob as mais impressionantes condições, para fazer julgamentos difíceis e nos proteger. Por isso, eu os parabenizo”. E foi com estas palavras que o ministro da justiça britânico, Charles Clarke, se pronunciou diante da morte do brasileiro Jean Charles de Menezes.
Não cabe a mim fazer um esboço coronológico do assassinato desse rapaz, muito menos transformá-lo em um mártir. Cabe a mim, como um ser humano, ficar indignado. Supõe-se que a racionalidade humana, esse seu caráter distintivo dos outros animais, tornaria as pessoas menos agressivas. O que se vê, no entanto, é constantemente a repetição de violência com atos lembrando o instinto de lobos famintos disputando uma caça, despedaçando-a.
Parabenizar a violência gratuita e considerar o assassinato de um caminhante como parte das ações bem concretizadas da luta contra o terrorismo, colocando-os num mesmo plano de valor é, no mínimo, revoltante. A começar pelo paradoxo que isso representa: um erro policial, a morte de um inocente e a colocação do Mr. Clarke, que disse “só ter elogios e admiração” para com a maneira como a polícia agiu.
Ação contraditória quando se sabe dos cinco tiros desfechados contra o rapaz, na nuca e na cabeça. Por que não atirar na perna e nos braços para imobilizá-lo? Por que “peneirar” a cabeça da vítima, se não era para matar era para que? Contradição que se evidencia mais ainda no momento em que tais atitudes são para manter o equilíbrio da sociedade, para protegê-la do Terrorismo...Ora mas tal ocorrência não é uma forma de terrorismo, não uma intimidação, não é uma prática truculenta e torpe?
Estamos falando de policiais, eles têm consciência do que fazem, recebem orientação de como agir em situações extremas – espera-se isso da polícia, ainda mais da milícia inglesa que só pode usar armas de fogo com autorização de superiores – eles atiraram para matar. E a intencionalidade do ato definitivamente não é merecedor de elogios e admiração, mas sim de estarrecimento, de revolta, de indignação.
O fato é: o Terrorismo não é uma prática mulçumana, ele é generalizado. Por mais que se apregoe a concentração de renda dos países ricos graças à exploração do resto do mundo (pobre), esta visão simplista não atinge os dirigentes das super potências, não chega nem a suscitar-lhes a insônia. Mesmo porque eles estão muitíssimo ocupados em lutar contra a violência do oriente. Assim, perdemo-nos em ensaios espirais, cada vez mais abrangentes acerca do que mesmo?

1 Comments:

Anonymous André Ricardo Randazzo Gomes said...

Caro Luiz, não vejo loucura alguma na orientação de atirar para matar num país vítima e na mira de terroristas. É sempre fecundo fazer um exercício de inversão de papéis: imagine-se no lugar dos ingleses. Antes de prosseguir, precisa-se lembrar que terrorismo é, por definição, uma ação difusa, sem identidade ou cara, é praticado por pessoas infiltradas indistintamente em meio a uma população civil, atuando igualmente de modo corriqueiro. Ora, se a polícia inglesa vê um sujeito aparentemente não nativo, trajado exatamente como terrorista, com mochila, e de comportamento suspeito, no metrô, local tido como alvo preferencial de terroristas, o que se poderia esperar dela senão um ataque imediato? Ademais, a polícia nada sabia sobre a nacionalidade do sujeito. Assim, sua intenção não era a de matar especificamente um brasileiro; poderia ter sido qualquer um, de qualquer outra nacionalidade. Foi uma ação aleatória, extremamente plausível, visto que o terrorismo é igualmente aleatório. Quer um indício de nosso cinismo brasileiro? Aposto que, se, por exemplo, o morto tivesse sido um americano inocente, ninguém no Brasil iria causar qualquer balbúrdia; ao contrário, esperariam-se até elogios à eficácia da polícia britânica. Você critica o fato de os policiais terem atirado na cabeça do sujeito; ora, melhor teriam feito se tivessem atirado, por exemplo, em sua panturrilha, deixando-o invariavelmente livre para detonar algum possível artefato explosivo? (Terroristas, via de regra, são dispostos a se suicidar, principalmente por não temerem a morte, segundo estabelece sua crença religiosa). Como se percebe, é muito difícil lidar com o terrorismo. Um golpe baixo só pode ser respondido com um contra-golpe baixo, ainda que apenas de precaução. Aliás, acima de tudo, é preferível matar um estrangeiro suspeito do que deixá-lo livre para levar a cabo qualquer ação que potencialmente causará a morte aos nativos. E, indo mais além no exercício de inversão de papéis, se lembrarmos, para citar apenas dois casos eminentes, o assassinato daquela missinária americana lá no Norte por ordem de poderosos extrativistas locais e, há poucos dias, o assassinato de um arqueólogo americano também no Norte por um simples assaltante? Segurança é melhor ter demais do que de menos. A única conclusão a que se pode chegar diante de toda essa história é que, se o Brasil fosse país alvo de terrorismo, nunca conseguiríamos deter qualquer terrorista, que seriam sempre exitosos em explodir seus dispositivos, mas é provável que seríamos capazes de matar intencionalmente ou não estrangeiros suspeitos - e inocentes.

2:51 AM  

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